Durante muitos anos, o câncer em geral foi considerado doença incurável, e a simples menção dessa palavra trazia pavor aos pacientes e familiares, que viam no médico e na equipe de saúde instrumentos inúteis e que em muitas vezes nada mais faziam do que tentar levar o sofrimento mais adiante, provocando reações as mais diversas. O que ocorria basicamente era que algumas famílias não só abandonavam seus pacientes como exigiam que os médicos também o fizessem. Foram então criados, em várias cidades, estabelecimento de saúde, denominados hospitais, mas que nada mais faziam que guardar os pacientes, segregados da sociedade e, muitas vezes, abandonados até pela medicina.

Os tempos mudaram com o advento de novas técnicas de diagnóstico, do tratamento cirúrgico. A radioterapia recebeu o reforço do acalerador linear e, finalmente, a Quimioterapia, com as novas drogas que nos últimos anos revolucionaram a sobrevida dos pacientes e provocaram o registro de curas em várias modalidades de câncer.

Os pacientes, passando o susto inicial do diagnóstico, passaram a se interessar pela doença, discutem com a equipe de saúde as novas modalidades de tratamento, bem como o tratamento rotineiro adotado em cada serviço. Os familiares dificilmente se desinteressam pelo destino dos pacientes e passaram a conhecer e exigir o direito destes. Um dos mais significativos exemplos veio exatamente da mulher que, desde 1898, eram sumariamente mutiladas pela mastectomia, aplicável em qualquer caso de câncer de mama. Os tempos mostraram que as grandes cirurgias não aumentavam a sobrevida no cômputo global das pacientes, e as novas cirurgias, menos agressivas, foram utilizadas, preservando a mama em quase toda sua totalidade, por exigência das pacientes que se reuniram e passaram a fazer parte da decisão quanto a terapêutica a ser adotada.

Hoje, a equipe de saúde tem por obrigação esclarecer o paciente sobre sua doença, amparada, é claro, pelo profissionalismo, que vai nos dizer até que ponto devemos explicar o assunto de modo mais detalhado. Influem a idade do paciente; geralmete as criançãs entendem mais, os adultos jovens se preocupam não só com a doença mas com sua consequência sobre si e sua família; os mais velhos frequentememte tentam se alienar do assunto, deixando o problema para os filhos, até mesmo por incapacidade fisiológica. São então relaizadas reuniões com os familiares contando em detalhes como iremos proceder no tocante a todos os aspectos do diagnóstico e tratamento. As dúvias têm que ser esclarecidas para evitar possíveis distorções que sempre ocorrem, levando muitas vezes os médicos e sua equipe aos conselhos de classe e até mesmo ao judiciário.

Minhas experiências na vida médica em oncologia leva-me à conclusão de que os pacientes não podem ser engandos, restringindo nossa verdade aos familiares. Todos têm que saber. O problema é que exigem vários modos de dar a notícia, mantendo sempre uma relação sincera que extrapola a relação médico-paciente para se tornar relação paciente-equipe de saúde.

Nesse ponto, a equipe tem que estar bem treinada, coesa, atualizada cientificamente, para dar o apoio que os nossos pacientes e seus familiares necessitam. Temos ainda que discutir a impessoalidade com que alguns casos têm que ser tratados, pois nem sempre o paciente e sua família aceitam o diagnóstico e o tratamento proposto. Nessa hora, o direito de escolha é valido. Mas a luta contra o câncer continua e já estamos na era de medicamentos que matam a doença impedindo o aporte sanguíneo ao tumor. Mais uma vitória que será implantada em nosso meio já no início do próximo ano.

Autor(a): Dr. José Luiz A. de Carvalho