Este material foi desenvolvido para orientar os pacientes em tratamento na Clínica Oncológica do Pará. Apresentaremos os principais cuidados necessários ao longo do tratamento, esclarecendo as dúvidas mais frequentes dos pacientes em quimioterapia. Qualquer dúvida que não puder ser esclarecida pela leitura deste material deverá ser levada a nossa equipe de enfermagem ou ao seu médico. Estaremos à disposição para atendê-lo. Acreditamos que essas informações poderão tranquilizá-lo quanto ao seu tratamento, facilitando ainda sua participação.
Estou com febre, o que devo fazer?
Febre é uma temperatura medida sob a axila maior ou igual a 37,8°C.
É importante voltar a medi-la mais tarde para surpreender uma elevação maior.
Se sua temperatura for maior ou igual a 37,8°C, entre imediatamente em contato com seu médico.
Meu cabelo irá cair?
A raiz do cabelo é o folículo piloso. Ele é formado por células que se dividem, fazendo assim com que o fio de cabelo cresça. Como as células que estão em divisão são as mais sensíveis a sofrer os efeitos tóxicos da quimioterapia, o cabelo pode ter seu crescimento afetado, o que leva à queda do fio. Porém, trata-se de um efeito reversível, e o cabelo voltará a crescer na sua velocidade normal.
É preciso ter em mente um detalhe muito importante: nem toda a quimioterapia leva à queda de cabelo. Se uma determinada quimioterapia irá ou não causar a queda de cabelo, depende de dois fatores muito importantes:
1) O tipo de droga empregada: existem quimioterápicos que são altamente tóxicos para o cabelo. Se uma dessas drogas for utilizada, é seguro que seu cabelo irá cair. Drogas pouco tóxicas tendem a poupar o cabelo, exceto se seu uso for prolongado. Nesse caso, pode haver um aumento da queda diária dos fios, que demora a se manifestar.
2) Sua sensibilidade ao tratamento: mesmo drogas pouco tóxicas podem, em algumas pessoas, ter efeitos colaterais bem maiores que o esperado. Essa sensibilidade – bastante rara – não é passível de uma avaliação prévia.
Não existem medidas eficazes para evitar a queda de cabelo. Mas é importante sempre lembrar que o efeito é transitório e o cabelo volta a crescer algumas semanas após o término do tratamento.
Alguns pacientes decidem utilizar perucas. Nesses casos, sugerimos que façam a peruca antes que o cabelo caia para que possa ficar parecida com o cabelo original.
Estou com náuseas e vômitos, como posso fazer isso passar?
É necessário ter em mente que existem dois tipos distintos de náuseas: a náusea imediata, que ocorre durante a aplicação da quimioterapia e é tratada com enorme sucesso com as drogas modernas; e a náusea tardia que ocorre geralmente 1 a 2 dias após a quimioterapia.
As náuseas são responsáveis por grande parte do estigma que a quimioterapia carrega até os dias de hoje. Não é para menos. Boa parte das drogas em uso atualmente – incluindo algumas que estão entre as mais potentes causadoras de náuseas – surgiram antes mesmo da descoberta da Metoclopramida (Plasil®). Era uma época difícil, os sintomas eram severos e não havia praticamente nada eficaz para aliviá-los. Hoje, existem drogas que controlam muito bem a náusea imediata.
- Hoje, a náusea imediata só ocorre em pacientes que são:
- muito sensíveis;
- muito ansiosos;
- que passaram pela quimioterapia quando as drogas modernas não estavam disponíveis e sofreram com seus efeitos colaterais.
A náusea tardia pode ou não ocorrer, dependendo do tipo de quimioterapia aplicada e da sensibilidade individual do paciente. É tratada conforme a sua intensidade com medicações mais ou menos potentes. A escolha das drogas depende do tipo de quimioterapia e dos sintomas que o paciente possa ter apresentado. O principal objetivo é impedir que o sintoma apareça.
De todos os ciclos de quimioterapia que o paciente fará, o primeiro é o que requer mais cuidados. Se o paciente ficar muito sintomático no primeiro ciclo, ele levará essa experiência negativa aos próximos ciclos do tratamento. Assim, é conveniente que o paciente receba medicação para tratar as náuseas mesmo se ele não estiver apresentando os sintomas.
Convém salientar que existem quimioterápicos que praticamente não causam náuseas e que dispensam o uso de medicação para esse fim. No caso de náuseas, há uma série de medidas simples que podem ajudar bastante a reduzir a intensidade dos sintomas, veja abaixo:
- comer devagar;
- evitar encher o estômago – fracione as refeições, ou seja, ao invés de três refeições, divida-as em várias pequenas ao longo do dia;
- evite beber líquidos junto com as refeições, deixe para fazê-lo antes ou depois delas;
- evite comidas muito condimentadas, que tem odor forte.
Estou com diarreia. O que devo fazer?
Existem quimioterápicos que podem causar diarreia. Porém, pessoas que não fazem quimioterapia também podem apresentar diarreia. Portanto, nem toda vez que esse sintoma surgir a culpa será, necessariamente, da quimioterapia.
A diarreia, quando causada pela quimioterapia, pode surgir por dois mecanismos diferentes. Existem quimioterápicos que estimulam a motilidade intestinal. Como é de se esperar, esse tipo de diarreia tende a ser imediata. E para combatê-la, seu médico pode lhe receitar um antidiarreico para ser tomado antes da quimioterapia. O segundo mecanismo da diarreia lembra um pouco o da mucosite. Há uma menor renovação das células que revestem o intestino. Com isso, a mucosa intestinal tem uma redução em sua capacidade de absorver os alimentos.
A diarreia também leva à perda de líquidos. Por isso, procure aumentar a ingestão de líquidos e passe a usar soluções hidratantes. Os soros hidratantes comprados em farmácia, como o Pedialyte® ou o Gatorade®, são eficazes.
Como em todo caso de diarreia, devemos usar uma alimentação adequada. Isso consiste em evitar alimentos ricos em fibras, frituras, alimentos gordurosos, alimentos condimentados, leite e derivados, álcool, café ou bebidas (como chá) que contenham cafeína.
Assim, procure manter-se hidratado e entre em contato com seu médico para saber se deve usar alguma outra medicação para tratar a diarreia
Meu intestino está preso. O que faço para melhorá-lo?
A obstipação pode ser resultado de uma série de fatores. São eles:
- ação da quimioterapia;
- efeito colateral da medicação para as náuseas;
- efeito colateral dos analgésicos;
- menor atividade física.
Como passar um dia ou dois sem evacuar é algo que já aconteceu com qualquer um de nós, geralmente o paciente só se queixa para o seu médico depois de ficar vários dias sem evacuar.
A permanência por longo período das fezes no intestino grosso pode torná-las muito endurecidas, causando dor durante a evacuação. A tendência é a de se interromper o ato de evacuar, perpetuando o problema.
Se a obstipação tiver uma grande probabilidade de ocorrer, ou já tiver se manifestado em um ciclo anterior, convém que medidas preventivas sejam adotadas. São elas:
- aumentar a ingestão de líquidos;
- evitar ficar deitado ou sentado, procurando fazer caminhadas ou alguma outra atividade física;
- seu médico lhe dirá se é recomendável aumentar a ingestão de fibras;
Se necessário, seu médico lhe dirá se é recomendável usar algum tipo de laxativo.
O tratamento depende muito da possível causa, do seu tipo de tumor, da quimioterapia empregada e do tempo em que a mesma foi administrada. O seu médico é a pessoa mais indicada para lhe passar informações adequadas sobre o seu caso.
O que está acontecendo com minha boca? Parece sapinho.
Todos nós já machucamos o interior da boca. O que poucos podem ter notado é que ela cicatriza muito mais rápido do que se o ferimento fosse na pele. Isso se deve ao fato de que a boca é revestida por células que se renovam rapidamente. Células que estão em divisão são as mais sensíveis a sofrer os efeitos tóxicos da quimioterapia.
Durante a quimioterapia, há uma menor renovação das células que revestem a boca. Com isso, a camada de células vai ficando mais fina, diminuindo a distância entre o meio externo e os vasos sanguíneos e as terminações nervosas. A boca vai ficando mais sensível e avermelhada, podendo surgir pequenas ulcerações, as aftas.
Alguns pacientes podem ainda apresentar queda da imunidade, o que favorece o surgimento de uma infecção oportunista pela candida albicans, o sapinho. Em casos mais raros, essa infecção pode se estender além da boca, afetando também a garganta e o esôfago.
É importante salientar que os sintomas irão regredir espontaneamente assim que o corpo se recuperar da quimioterapia. Como os primeiros sintomas são os de dor, é importante uma analgesia. Isso é fundamental nos casos em que a dor estiver prejudicando a ingestão de alimentos e água. A dor pode ser tratada através de:
1) Frio: a baixa temperatura não permite a condução do estímulo nervoso. Todos já passamos pela sensação de – no frio – não sentirmos nossas mãos e/ou orelhas. O uso de sorvete permite uma ingestão de calorias e a sua baixa temperatura irá anestesiar a região, permitindo por algum tempo a passagem de alimentos mais sólidos.
2) Medicação: como se trata de um problema eminentemente local, damos preferência a tratamentos que também atuem no local. Para tal, usar o Hexomedine®, um anestésico em spray que pode ser usado antes das refeições.
Não há muita diferença entre tratar o sapinho de um bebê e de uma pessoa que fez quimioterapia. As medidas consistem basicamente em:
1) Alcalinização da boca: feita com solução de bicarbonato de sódio. No hospital, usamos uma solução a 3%, que pode ser facilmente obtida diluindo-se 30 g de bicarbonato em 1 litro de água. Deve fazer bochechos e gargarejos (não engula a solução), pelo menos 6 vezes por dia.
2) Uso de Nistatina (Micostatin®): aplique cerca de meio conta-gotas em cada canto da boca, faça bochechos e gargarejos. Use a medicação cerca de 30 minutos após o bicarbonato. Diferente do bicarbonato, esta medicação pode ser engolida. Nos casos em que o sapinho está também afetando o esôfago, engolir a medicação é a forma de fazê-la também agir naquele órgão.
Prevenir o sapinho pode ser feito pelo uso da solução de bicarbonato de sódio, sendo recomendado em todo paciente que já apresentou mucosite em ciclo anterior ou que esteja iniciando tratamento com um esquema de quimioterapia que possa causá-la.
Em que situações eu devo procurar atenção médica urgente?
Situações consideradas de urgências médicas:Febre (temperatura maior ou igual a 37,8 ºC);
Falta de ar de início súbito ou recente;
Convulsões;
Confusão mental;
Dor de aparecimento recente ou não controlada pela medicação em uso;
Mal estar intenso, mesmo que a causa não seja identificada;
Diminuição de força nas pernas ou dificuldade para andar de aparecimento recente;
Grande fraqueza de início abrupto;
Náuseas ou vômitos que não permitam a ingestão de alimentos ou líquidos;
Diarreia líquida ou com mais de 3 episódios em 24 horas.
